terça-feira, 2 de maio de 2017

Diário de uma Hemorroidectomia - Primeira consulta pós-cirurgia

Passados sete dias, é hora de marcar uma consulta de avaliação com o médico-cirurgião. Engraçado, muito se lê a respeito da primeira vez que se vai ao banheiro após a cirurgia, mas não li nada sobre a primeira consulta. É fato que ir ao banheiro é algo natural e que ninguém tem vergonha de falar, mesmo que seja para aterrorizar as demais vítimas da hemorroidectomia. No entanto, a primeira consulta, pelo menos para mim, foi muito pior. 

Ao contrário da naturalidade inerente à ida ao banheiro pela primeira vez, a consulta pós-cirúrgica é algo bem mais agressivo e que pode levar muitos a terem vergonha de contar sua experiência. 
 
Bem, todos que sofrem de hemorróidas sabem o que é um exame proctológico. A sensação é de violação ao mais íntimo do seu ser, sobre a qual você apenas tem que virar a cabeça e aceitar. Em tempos normais, essa violação é apenas dolorida e humilhante, não necessariamente nesta ordem. Após a cirurgia, a humilhação é totalmente esquecida para dar lugar àquela que, confesso, foi uma das mais profundas dores que já senti. Esqueçam a primeira ida ao banheiro. Aquela dor é nada perto dessa. Além disso, quando você vai ao banheiro, é você que está no controle, podendo acelerar ou retardar a situação a qualquer momento. Além disso, o ato em si é relativamente rápido, após o qual você se refresca com uma ducha quente ou com um bom banho de assento.
 
No caso do exame, a situação é totalmente diferente. Primeiro, você não tem controle de nada. Sua única opção seria não descer as calças e fugir dali. Uma vez que ninguém faz isso, só nos resta virar o rosto, procurar um travesseiro e mordê-lo. Confesso que a sensação que tive ao ser penetrado foi tão horrorosa que não desejo isso para ninguém. A dor foi tamanha que, mesmo mordendo o travesseiro, o grito não pode ser contido. O que outros pacientes podem ter pensado eu não sei, mas simplesmente não deu para segurar.

Diário de uma Hemorroidectomia - Dias 3 a 7

Depois da primeira vez que se vai ao banheiro, um pouco da angústia e do medo que estavam internalizados se vão. As próximas idas, apesar de ainda doloridas, são um pouco mais normais a cada vez, mas ainda bastante cansativas.
A primeira semana como um todo é bastante dolorida, com mais tempo na cama, sem posição que alivie, do que qualquer outra coisa. A recuperação é lenta e progressiva, muito embora pareça algumas vezes ser do tipo "dois passos para a frente, um para trás". 
 
Não dá para pensar em fazer nada nesta primeira semana, apesar que, a partir do quarto ou quinto dia, já dá para estudar, ler, usar o computador.

Diário de uma Hemorroidectomia - Dia 2

Este é o dia D, ou C, já que será a primeira vez que irei ao banheiro após a cirurgia fazer o número 2. Sabe todas aquelas histórias que lhe contam sobre esta etapa? É pior. A sensação é de algo saindo de dentro de você sem que ele queira. E em sua luta para ficar ele encrustra suas garras no mais profundo do seu ser e, ao sair, trás consigo pedaços de você. Nas feridas que ficam, a impressão é que alguém jogou álcool e riscou um fósforo. DOR, DOR, MAIS DOR!!! E não só doi, ARDE. Um ardor indescritível. Um abacaxi inteiro enfiado no seu cu não deve doer mais que isto.  Depois de todo o sofrimento da primeira vez, as demais são menos traumáticas. O pior é a medicação prescrita de supositórios. Se sair já é difícil, imagine você tendo que enfiar qualquer coisa para dentro. Não dava. Creio que ficaram todos na porta da cuzinha e ali mesmo derreteram.

Diário de uma Hemorroidectomia - Dia 1

Após uma noite mal dormida, logo cedo chega a médica que fez a cirurgia plástica anal. Sorridente, perguntou-me se eu queria ir embora ou ficar mais um dia. Que pergunta! Mas eu somente receberia alta após conseguir urinar, algo que eu ainda não havia conseguido. Desafio posto, desafio aceito.

A grande dificuldade em urinar é explicada, em primeiro lugar pelo tipo de anestesia (raqui). Depois, o organismo se encontra em fase de dor, emitindo sinais confusos para o cérebro. Assim, ao tentar urinar, seu organismo se confunde e acaba não saindo nada.

De qualquer modo, consegui: casa.

Diário de uma Hemorroidectomia - Dia Zero

Acordei cedo, apesar de a cirurgia somente estar marcada para às 13:00 horas. Estômago vazio desde a noite anterior, assim permaneceu, com exceção de água, liberada pelo anestesista até duas horas antes da cirurgia.

Chegamos no hospital por voltadas 9:30 horas e fiz a internação. Depois de entrar no quarto, vi que poderia ter chegado um pouco mais tarde, mas a ansiedade venceu.

Uma hora depois, entra a enfermeira e me entrega uma camisola cirúrgica e um pacote contendo pro-pés, touca e uma ceroula própria. Entrega ainda uma siringa com um líquido, orientando-me que eu deveria utilizá-lo para higienizar o local onde seria realizada a cirurgia, utilizando-o como um detergente.

Às 11 chega o anestesista, um amigo, para me tranqüilizar, fazer algumas perguntas e dar orientações. Diz-me que vai me receitar um dormonid, mas que eu somente o tomaria se quisesse. Não tomei.

Ao meio-dia, estou pronto. 12:15 h chegam os enfermeiros para me conduzirem ao centro cirúrgico em uma cadeira de rodas. Sou colocado sobre uma mesa cirúrgica que tem pouco mais que a largura do meu corpo, dura e desconfortável. Peço à enfermeira um travesseiro e recebo uma manta dobrada para colocar sob a cabeça. Fico olhando para o teto e para o conjunto de iluminação que se encontra sobre mim.

Uns quinze minutos depois, chega o anestesista. Conversa comigo, pergunta se está tudo bem e começa a preparar o material. Em seguida chega a médica cirurgiã, também me cumprimenta e começa a orientar a enfermeira sobre os materias e equipamentos necessários. 

O anestesista pega minha veia e eu começo a receber uma medicação, que creio ser algum narcótico potente. Recebo a seguir dois pequenos tubos no nariz, com a informação que se trata de oxigênio.

Acordo umas duas horas depois, deitado sobre uma maca, a caminho da sala de recuperação, onde permaneço por mais quase uma hora. Neste meio tempo, percebo minhas pernas ainda dormentes, com meus pés começando a se mexer. Ufa! Não fiquei paraplégico.

Às 16:00 h sou levado para o quarto. Minhas pernas já se mexem, mas não sinto nada abaixo da cintura. Apenas quando levanto o lençol que me cobria, percebo que estou sem cuecas. Toco em meu pênis. Nada.

O anestisista sobe ao meu quarto por volta das 18:00h. Após perguntar como eu estava, ele se despede com uma frase marcante dirigida à minha mulher: "Esse sorriso tranqüilo no rosto é porque ainda não passou o efeito da anestesia". 

Dito e feito. Passado o efeito da anestesia, não teve dipirona que resolvesse. Implorei para que me aplicassem morfina ou me dessem uma paulada na cabeça. A expressão americana, "a pain in  ass", para descrever algo ou alguém insuportável foi compreendida por mim em toda a sua extensão. Muito mais forte que a nossa pé no saco.

Hemorróidas

Existem algumas partes de nosso corpo que não damos muita bola, considerando-as mesmo de segunda classe. Uma delas é o cu, lembrado apenas quando vamos ao banheiro fazer o número 2. Algumas pessoas dão tão pouco valor a ele que o dá a quem pedir.
 
Pois bem, apesar de não me encaixar na segunda categoria de pessoas, eu também nunca me preocupava com o que se passava abaixo da linha do equador: naquele buraco onde só passa merda. Até o dia em que operei de hemorróidas.
 
A partir desse momento, um órgão tão insignificante até então passou a ser o mais importante, onde tudo o mais ocorre em função dele. Chego a pensar mesmo que os demais órgãos somente existem para atender as necessidades baixas.
 
Como descrever a sensação de algo saindo de dentro de você sem que ele queira e que, talvez por isso, crave suas unhas em sua pele, rasgando-a à medida que você o expele e esguinchando álcool e fogo na ferida ao ser expulso.
 
Agora eu entendo a expressão americana "a pain in the ass" para descrever alguém ou algo insuportável. Melhor que a nossa "pé no saco".